quinta-feira, setembro 29, 2016

Ernesto Meyer Filho




Ernesto Meyer Filho. By Eloy Figueiredo.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

Guerra no Rio Guaíba.


O lago da Redenção já era pequeno demais para minhas aventuras náuticas, e, além disto, descobri que o seu Zé alugava barcos no rio Guaíba sem nenhuma exigência, então passei olhar as ilhas em frente do bairro Alto da Bronze como terras a serem conquistadas. Só tinha um problema... O dinheiro para o aluguel do barco ali era bem mais caro que os da Redenção.


Eu estava decidido a embarcar numa aventura até a ilha mais próxima e para isto comecei uma pesquisa no Colégio Paula Soares onde estudava, na 4º serie. Foquei um guri que poderia financiar esta empreitada. Notava que ele sempre andava com um bom corte de cabelos, boas roupas e um sorriso que ele não tirava do rosto nem mesmo brabo, via também que as professoras lhe dedicavam total atenção e às vezes ele era buscado de automóvel no colégio. No colégio nós éramos amigos, mas só no colégio. Nunca via ele na rua ou na pracinha com alguma turma de guris, mas ele tinha uma cara boa de gente legal e foi por isto que o convidei para esta primeira aventura, uma conquista da ilha pequena e ele topou na hora. Só tinha um problema: ele era de uma espécie de guri rico e bem cuidado. Depois vim saber que ele era mesmo. Filho único no meio de cinco irmãs mais duas mães. Eu ainda não sabia que as pessoas se separavam. Ele foi o primeiro guri que conheci filho de pais separados. Para começar eu teria que ir até sua casa pedir permissão para seus pais - coisa estranha, eu saia à hora que queria depois das aulas e meus amigos também, imaginava que todo mundo era assim como eu.
No dia combinado fui eu e meu irmão mais novo, Zezinho, até o amplo apartamento no edifico GBOEx, onde ele morava pedir permissão e mentir para ele ir comigo andar de barco na Redenção.
Fui interrogado pela sua madrasta durante vários minutos, ela fazia questão de me mostrar o quanto valia aquele guri e isto quase me fez desistir da aventura no rio e ir com aquele príncipe (cara ele tinha) pra redenção.
Eu falei:
- Eu me responsabilizo por qualquer coisa que poderá vir a acontecer com ele.
Ela então falou:
- Quer dizer se acontecer do André (Jockyman, filho do Sérgio, um dos maiores e melhor jornalista que já conheci) morrer, você vai me dar um outro André?
Aí me dei conta da enorme responsabilidade, pensei:
“Puta que pariu... que fria estão me metendo”.
Depois de meia hora de recomendações, para a minha surpresa e angústia, ela concordou. Agora era eu que não mais queria ir ao rio e sim remar no lago da redenção, mas o André e o meu irmão não quiseram aceitar as mudanças de planos. Já de cara comecei a me preocupar para atravessar as ruas quase pegando ele pelas mãos que ele soltava querendo mostrar rebeldia. Logo eu, que nunca me preocupava com nada até este dia.
Ele e meu irmão iam correndo na frente como cachorrinhos de apartamentos e eu atrás com o coração na mão:
- Cuidado com o bonde, olha os carros, meu Deus!
Quando chegamos para escolher o barco, escolhi o mais largo e com melhor estabilidade, porem ele era pesado e lento, mas sabia que este não viraria.
Notei quando estávamos chegando ao velho Zé que a turma da Rua Demetrio Ribeiro tinha seu próprio barco, e todos estavam soltando rojões na água e fazendo uma enorme algazarra, alguns mergulhando e dando caldinho nos guris menores e os outros em pé dentro do barco mostravam destreza e velocidade no remo.
O André sentou na proa e meu irmão na popa enquanto eu sentei no meio, no lugar dos remos sob protestos dos dois.
Eu já tínha remado um quinhetos metros da margem e vi que entrava água pelas frestas mal calafetadas do barco e por isto já tinha duas latinhas estrategicamente posicionadas para ir tirando a água de dentro. Isto achei normal.
Então... vi a turma da Demetrio Ribeiro se aproximar velozmente em nossa direção, atirando rojões às gargalhadas. Foi quando um dos rojões caiu dentro do nosso barco fazendo ele se estremecer todo, quase rachando suas tabuas velhas e frágeis.
Reconheci o alemão Edson, seu irmão Lauro, o Cadico, e o “traidor” Martelinho, morador da Rua Fernando Machado que estava nos remos rindo e fazendo a maior força. Eu ameacei de quebrar suas caras se eles continuassem. Ai mesmo que eles riam mais e jogavam mais rojões. Pedi que meus marujos:
- Tirem à água do barco, tirem à água...
A água já estava tapando nossos pés e isso me deixava aflito: o que fazer se o barco afundasse com aquele principe dentro dele? Eu daria outro André à madrasta? O suor escorria no meu rosto naquela tensão da guerra de barcos, que mais parecia um filme de piratas com canhões e espadas. Enquanto os piratas liderados por alemão Edson com sua cara de mal e um dente de ouro exposto pelo sorriso cínico, bombardeavam meu navio. E eu dizia: "Continuem tirando a água!", mais aflito do que nunca. Foi então que decidi lutar de frente para proteger o principe André. Me levantei e peguei o meu remo-espada, que serviu para que eu rebatesse as fortes e pesadas balas de canhão. Rebati uma, duas, três, até que o capitão pirata deixasse de sorrir. Mas mesmo com uma pequena vantagem, meu navio era muito fraco e a água, apesar do empenho de meus marujos, já estava nas nossas canelas. Olhei para margem e vi o velho Zé que vinha gritando e remando em nossa defesa da guerra. Os meus tripulantes estavam paralisados de medo, mas, mesmo assim, o André continuava com seu sorriso de Curinga. Foi então que, felizmente, percebemos que a correnteza estava à nosso favor. Percebi que o navio pirata deles estava ficando de lado para o nosso. Apesar de ser mais fraco, o meu navio era maior que o deles e, com isso, empurramos com toda a força o nosso contra o deles. O gigantesco navio pirata vacilou na água, e, logo depois, virou, para nossa felicidade e desespero da turma da Demetrio Ribeiro, que ficaram agarrados ao navio e assustados com os corpos dentro do rio.
Logo me dispersei da minha "viagem" de filme e, aliviado, vi que meus tripulantes marujos estavam salvos. Foi aí que eu vi o velho Zé, que chegou ralhando com eles. Fomos rebocados pelo barco do velho, já que o nosso ficou à deriva com água que já cobria nossas canelas, mas contentes e felizes como todos os vencedores.

Anos depois nos encontramos por acaso, na combatente e vibrante sucursal do Jornal O Globo, no 2º andar do edifício do Relógio na Rua da Praia. Lá trabalhamos juntos por vários anos, eu como representante do Dr. Roberto Marinho, ele na redação e o Zezinho, meu irmão, como motorista e distribuidor do jornal em Porto Alegre.

domingo, junho 25, 2006

Uma noite com Raul Seixas



Era o "boom" da soja em Santa Rosa RS. Os plantadores iam até a revenda Fiat, que estava começando no Brasil e pagavam em dinheiro vivo, compravam até 3 carros Fiat por vez, tirando dinheiro de sacos de aniagem que traziam nas costas. Agricultores que mais pareciam catadores de papeis, sujos e barbudos, mas cheios da grana. Algumas pessoas juntavam no meio da rua o que caiam dos caminhões que transportavam soja, enchiam sacos de 60kg, só com que cai no asfalto. Todo mundo ganhou dinheiro lá aquele ano. Fui pra lá comercializar uma revista de turismo da cidade, enviado pela Editora Intermédio, do Políbio Braga e da Ana Amélia Lemos, que tudo sabia das oportunidades de negocio de cada município, e aquele era o momento de fazer a de SANTA ROSA. Nesta edição, eu ganhei uma bela grana só com comissões. Na volta, lembro, comprei um Fusca 76 à vista.

Como a distância de Santa Rosa para Porto Alegre é de mais de 500km, as estradas para lá eram terríveis. Fiquei dois finais de semana trabalhando sem vir para casa. Nunca em viagens gostei de me enturmar com viajantes em hotéis, eles só falam de jogos de cartas, zona e encher a cara no bar do hotel. Eu sempre procurava os lugares que as pessoas da cidade freqüentavam, e nesse dia eu sabia que tinha um show na cidade. Era noite de sábado. Depois de jantar e ficar tomando alguns chopes, por volta da meia noite estava regressando para hotel, morto de cansaço. Estava subindo as escadas de madeira, quando vem em minha direção um maluco de coturno, magrão, barbudo, óculos escuros, todo de preto e cheio de correntes. Parecia ter quase dois metros de altura, fazendo o maior barulhão nos degraus, completamente louco, descendo e pulando de dois em dois degraus com um litro de uísque na mão.
Soube que era o Raul Seixas, que tinha acabado de fazer um show lá.

Desci, e do outro lado da rua na frente do hotel, estava ele e sua banda, falando super alto. Ele estava de pé com um dos pés no banco, fumando de costa para o hotel. A maior maresia em toda a praça.
Aproximei-me e perguntei se podia dar um pega. “Tudo bem” respondeu, e passou o baseado pra mim, logo depois o litro de uísque que bebiam no bico.
O Raul ficou “viajando” (eu também) no céu baixo e super estrelado lá de Santa Rosa, que naquele momento tinha se tornado o céu mais lindo que eu já presenciei. Falava das estrelas tão brilhantes e o céu baixo maravilhosamente azul marinho, salpicado de astros. Imitava Elvis dançando e fazia sons guturais ritmados e sem sentido. Aquele era o cenário mais perfeito para um show, parecia que estávamos em baixo de uma lona de veludo azul-marinho de circo, assistindo e fazendo parte de tudo.

O Raul era realmente um predestinado. Ninguém falava, só escutavam e fixavam sua imagem. Ele não parava de falar e era música e poesia tudo que dizia.
Tive este privilegio, que poucos tiveram de ter convivido com este anjo de negro chamado Raul Seixas.


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domingo, junho 11, 2006

Jesus me disse...>> 2º parte.

Parte II

A Vingança


Jesus não desce do morro para trabalhar no Mercado Público já há alguns dias. A sua mulher começa a notar mudanças de comportamento. Jesus chegava todos os dias em casa completamente bêbado, agressivo, e não dormia mais com ela. Quando ela demonstrava preocupação e questionava-o, ele sempre respondia fria e secamente:
-Não enche, mulher... -Olha Jesus, acho que tu tá doente... Tá sempre com essa cara de cachorro, não come, não dorme, não quer ir trabalhar mesmo sabendo que não tem mais nada dentro de casa pra comer... Tu vai é acabar morrendo, isto sim. -Não enche meu saco, mulher... Dizia isto e saia de casa, subindo o morro até próximo a uma capelinha com uma imagem de São Jorge matando o Dragão, onde tinha uma nascente de água abundante. Sentava ali meio escondido e ficava de “butuca” espreitando o barraco do Marreta, que era logo acima, matutando o que fazer para acabar com o que vinha sentindo. Era um sentimento de vazio por dentro uma agonia que não tinha fim. Ficava "viajando" com o Marreta, descendo o morro com seus comparsas, armados até os dentes com AR15 e pistolas. Jesus então pulava na frente deles também com uma AR15, metralhava primeiro os comparsas, depois dava dois tiros, um em cada joelho de Marreta fazendo ele se ajoelhar, enquanto o Saddam nada fazia para salvar seu dono. Depois Jesus aproximava-se do Marreta que estava de joelhos chorando e implorando que não fosse morto repetia : “eu não quero morrer, pelo amor de Deus livra a minha cara...” Jesus então sentia-se poderoso, chegava perto do Marreta, e falava com cara de mau: “então chupa o pau do Saddam até ele gozar, seu filho da puta!!!”. Saía do devaneio com um pequeno sorriso.

No dia seguinte, um sábado depois do meio-dia, Jesus vê o Marreta descendo o morro, dando ordens para todos os lados. No morro, aos sábados é rotineiro o sobe e desce de soldados do tráfico. Marreta vai para o boteco do Português onde fica mais perto da administração do seu negócio de drogas. Fica ali até á noite. Saddam fica guardando o barraco, e isto significa que ele esta carregado. Foi então que o sangue de Jesus encheu-se de coragem e maldade. Ele queria se vingar, teria que ser e muito bem feito, não importando as conseqüências. Ele pega um saco vazio de farinha branco de 60kg, um facão de abrir picada no mato, sua faca de peixeiro, uma metade de cabo de marreta e a última cabeça frita de tainha que tinham em casa. Coloca tudo dentro do saco e sobe em direção ao barraco do Marreta, ficando escondido por perto até entardecer. Depois, se esgueirando por trás do barraco, chama o Saddam - que a ouvir a voz de Jesus, vem chegando grunhido e totalmente excitado. Jesus mostra a cabeça de peixe frito e quando Saddam se abaixa para comer, recebe uma paulada na cabeça, mais outra, mais outra, e bate até ter certeza que Saddam está quase morto. Logo em seguida arrasta Saddam na direção da vertente e com sua faca de peixeiro abre a garganta do bicho. Com técnica, tira o couro e esquarteja Saddam. Com o facão grande, corta a cabeça, patas e tripas, e joga tudo pelo lado de trás do morro onde tinha um precipício. Depois, coloca toda a carne dentro do saco e desce o morro. Anoitecia quando ele chega no boteco do Protuguês, que estava bastante movimentado, com todo mundo puxando o saco do Marreta. Jesus entra no boteco carregando o saco, e todos olham pra ele. Mas ele se dirige indiretamente à Marreta, dizendo alto:
- Eu boto a carne de ovelha que ganhei no mercado, quem bota a cachaça e a cerveja? Marreta diz, entusiasmado:
-Eu boto, gente boa!
-Viu Marreta? Não te falei que ele era gente fina? Diz o Português, com um sorriso satisfeito. Uma janela do morro abre e uma mulher diz:
-Eu tenho umas batatas e ovos, posso fazer uma maionese!
-Tá dentro, responde Marreta. “Eu tenho carvão!”, “Eu pago umas cervas!”. Tá dentro, tá dentro! Imediatamente o boteco toma um ar de festa. Já aparece um cavaquinho, um pandeiro, um surdo, umas meninas do morro com saias curtinhas e sandálias altíssimas começando a sambar. Jesus é quem vai assar o churrasco, e ganha o primeiro copo de cachaça e começa espetando as parte de Saddam nos espetos, enquanto o fogo já estava quase pronto. Lá pelas 21h, quando o churrasco já está quase pronto, aparece seu filho dando uma bronca no pai. Seu chão parece sumir. – Pô pai, a gente lá em casa sem nada para comer e o senhor dando churrasco aqui no morro, vou levar um pedaço para casa. Marreta fala – não vai levar porra nenhuma, se sobrar tu leva, só se sobrar, e cai na risada... Jesus diz para o filho ir para casa, que ali não era lugar para ele ficar. O guri argumenta que esta com fome, sai para o lado do boteco senta numa pedra de onde enxerga a cidade lá embaixo. Fica em silêncio diante de toda áquela algazarra olhando as janelas dos edifícios com suas luzes acesas onde parece que todos estão felizes. Olha a avenida toda iluminada e cheia de carros, não entende nada, mas continua assim, olhando com olhos secos e vazios. Permanece assim por um bom tempo, quando ouve a voz de seu pai já embalado pela birita falando que o primeiro pedaço do filé era do Marreta, liberando geral para os convidados começarem a cortar seus pedaços e comerem com as mão. Seu filho se aproxima e pede um pedaço da carne. Jesus implora para que ele vá para casa. Um descuido e o garoto pega um pernil e joga para dentro do bolso da frente do moletom que queima sua barriga, e sai em direção de casa caminhando rapidamente. Jesus ainda tenta traze-lo de volta, mas o Marreta diz para deixar: - Assim sobra mais pra mim! E que aquela era a melhor carne que ele já tinha comido. Uma Delícia!!! Depois de terminado o churrasco, Jesus vai embora. Chega em casa e vê três pratos com marcas de feijão, arroz e as sobras dos ossos bem ruídos do Saddam sobre a mesa. Jesus deita em sua cama, se encolhe numa posição fetal e chora copiosamente.

domingo, junho 04, 2006

Jesus me disse...>

Parte I

Martírio

Jesus trabalhava no Mercado Público, ajudando descarregar os caminhões de peixes que começavam chegar depois das 04h30 da manhã. Ele tinha no máximo 1,60m de altura, não pesava mais de 60 kg, tinha a pele morena, usava óculos de professor com cordinha no pescoço, era quieto e tranqüilo, cabelos encaracolados curtos, mas com costeletas até a metade do rosto, e usava um bigode bem fininho. Os caminhoneiros que descarregavam peixes, quando tentavam pegar no seu pé, ele só respondia timidamente “tais tolo, tais...” e seguia empurrando o carrinho cheio de peixes, camarões, siris, lulas e mariscos conservados no gelo para os boxes. Este trabalho se estendia até as 08h00, quando ele parava para o sagrado cafezinho. Chegava ao bar do mercado e o garçom já sabia, - O de sempre Jesus? Botava uma mistura de bitter com cachaça até a metade de um copo de refrigerante para não derrubar. Este já era seu segundo. O primeiro ele já havia tomado antes de sair de casa para aliviar a tremedeira. Depois comia um pão com mortadela e queijo, com uma xícara de café preto. Aí, ajudava limpando peixes nos Boxes, trabalho que durava até as 16h00.
Antes de anoitecer, quando chegava ao morro, ele ainda passava por mais três bares. Anoitecia, chegava em casa lá pelas 19h00, sempre bêbado e feliz, levando com ele um belo filé de peixe ou as melhores iguarias do mar para sua mulher e dois filhos, uma menina com 18 anos e um guri com 16. Depois de começar a subida do morro quando termina a rua, ele tinha que subir uns 500 metros de escadaria. Era na metade da mesma onde ele tomava a “saideira”, no boteco do Português. Boteco fedorento, aonde só tinha cachaça, cerveja, velas, caixa de fósforos, lingüiça e um vidro grande de conserva de ovos, que dizem, o Português só lavava a mão quando pegava um ovo para o freguês, depois saia secando a mão num pano de pratos imundo. Tinha ainda uma mesa de lata da Brahma com três cadeiras, alguns copos e garrafas de cerveja.
Quando Jesus chegou, viu que a barra estava pesada. Lá estava o chefe do morro, o Marreta com seu cachorro Saddam, um rotweiller de quase 50 kg, acompanhados por mais dois “irmão” da pesada, o Zé Boca Murcha e o Santamaría – e, pelo jeito da conversa ao pé de orelha, eles estavam fechando algum negocio. Marreta era mau, um sarará grande e forte, sinistro mesmo, cabeça raspada e um pequeno cavanhaque, ele nunca descia do morro. Ele era a própria chave de cadeia, vivia sempre muito louco, completamente “chapado”, matava por prazer. Jesus quando chegou, mesmo reconhecendo o dono da boca, não conseguia controlar sua tontura alcoólicos e acabou tropeçando numa lajota e caindo sobre a mesa do Marreta, quebrando garrafas de cerveja e o copo de cachaça. Marreta, surpreso, tomou o maior susto e os dois comparsas caíram longe já com as pistolas na mão. Até o cachorrão se assustou com a cena e começo latir para Jesus, que estava caído sobre a mesa com um pequeno sorriso de desculpas no rosto. Marreta chegou perto do Jesus agora gritando com uma pistola na mão. – Qual é, Mané? Que bosta é esta? Vou te apagar... Vou te apagar, caralho de bebum xarope!!! Foi quando o Português, reconhecendo o Jesus Bebum, suplicou: - Oh Marreta, alivia ele, este cara e gente boa, só que às vezes bebe demais. O Marreta retrucou, com um sorriso malicioso e sem misericórdia: – Não tem arrego Pra ele ser aliviado, vai ter que chupar o pau do Saddam. Quando ele falou isto o cachorro ficou excitado, como se aquela palavra já fosse conhecida, uma voz de comando.
– Vamo lá, bebum xarope, chupa o pau do Saddam! Jesus não conseguia falar, estava tudo rodopiando, ele só via a cara daquele cachorrão excitado, grunhindo de pau para fora: grande, fino, vermelho e molhado. Marreta da um chute nas costelas do Jesus que ainda estava caído, e com raiva diz mais uma vez: Chupa o pau do Saddam, caralho!!! O Português falou novamente: – Alivia ele, Marreta, ele paga o prejuízo. Marreta pareceu interessado e perguntou: – Tu tem dinheiro, bebum otário? Jesus mostrou tudo o que tinha, e, rapidamente, Marreta toma todo seu dinheiro. – É, isto aqui dá, e o resto fica como pagamento pelo prejuízo, a sacola também vai ficar comigo. Ele pega o assustado Jesus pelo colarinho, o levanta com a mão esquerda, coloca a outra nos bolsos do Jesus dando uma geral, depois de ver que Jesus não tem mais nada de valor, e enche a cara do Jesus de tapas na cara, com a mão aberta só para humilhar. Depois dá um pontapé na bunda e o manda embora ao som do riso dos outros freqüentadores do bar e do grunhido de choro do Saddam. Jesus vai, chega em casa e não fala nada para ninguém, deita na cama e se encolhe como uma criança, e chora a noite inteira de soluçar.


Domingo que vem: Jesus me disse, Parte II – A Vingança.

domingo, maio 28, 2006

Gauchão

("Viagem" sem cortes)




A gurizada não gostava muito de jogar na quadra da Praça do Alto da Bronze por dois motivos: primeiro pela limitação do campo, era pequeno demais para se jogar 20 para cada lado; segundo porque sempre tinha os guris mais velhos jogando basquete. Então nosso campo ficava na frente da praça, na parte mais plana da Fernando Machado. O problema era que se alguém chutasse mais forte na bola, descia a rua indo parar duas quadras de distância ou se alguem chutasse torto (tinha que colocar o pé na forma) ela descia a ladeira da General Portinho indo parar do outro lado da Washington Luiz, e só pra buscar a bola já perdia-se muito tempo de jogo.
O melhor campo da Rua Fernando Machado era o da frente da escadaria que saia na Duque de Caxias entre a ruas Gen. Bento Martins e a Gen. Alto. Lá tinha um prédio baixo todo revestido de pastilhas de várias cores, ele tinha um recuo da rua de uns 4 metros por 20 de comprimento, onde ficavam as traves marcadas com qualquer coisa, como tijolos, paralelepípedos, pastas do colégio, enfim, o que tivesse na mão. Mas o mais interessante da rua, é que esta parte era plana.


O time da praça e o time da escadaria sempre se enfrentavam. Podia ser 8 para cada lado como 15 para cada lado, só não podia jogar com um a mais, aí tinha que esperar para que chegasse outro guri para irem um para cada lado, e como dizia a única regra, tinham que começar no gol. Valia tudo e ainda não existia time com camisa contra os sem camisa, a gente se conhecia, e como naquele tempo pouco se trocava de roupa, era muito mais fácil. Podia se jogar de pés descalços, guides, tênis Conga, sapatos Vulcabrás ou chuteiras com as tachinhas de fora. Quem jogava de chuteira com tachinhas não podia “solar” colocando a bola em risco de furar.


Não existiam laterais e o escanteio era batido ou na Gen. Auto ou na Gen. Bento Martins. Nunca saiu “gol olímpico” já que as goleiras ficavam no meio do campo.
O único cuidado era que a bola não caísse na casa do Coronel que morava do lado direito da escadaria de quem sobe para a Duque, um gaúcho neurótico de guerra. Diziam que ele tinha combatido na Guerra dos Farrapos, vivia de sentinela na frente de sua casa tomando chimarrão sentado num banquinho. Usava bombachas, lenço no pescoço e boina azul. Assim que iniciava o jogo ele sumia e se a bola caísse no pátio dele, ele reaparecia não se sabe de onde, e antes que a bola quicasse duas vezes, ele já estava com ela não mão esquerda. Puxava das costas um facão de 7 listas e ZAZ! Cortava a bola no meio. E, com o sorriso neurótico dos vencedores, jogava a bola cortada ao meio no centro da rua. Só restava o dono da bola vestir como uma touca uma das metades da bola de borracha, enquanto o capitão do time vencedor vestia a outra metade. Ironicamente, havia acabado o jogo.
Um dia, o Otavio ganhou uma bola de couro n° 5 oficial. Era uma bola “Lusbal”, considerada a melhor entre os guris, confeccionada pelos presidiários do Partenon, super resistente, nem tachinha de chuteira velha conseguia penetrar aquele couro. Otavio tinha uns 15 anos mas com aparência de 25. Ele era totalmente cabeludo e andava sempre só de calção quadriculado tipo dos Argentinos, só que bem apertado no corpo (isto no inverno e verão). Penso que ele só colocava camisa,calças e sapatos para ir à escola ou para o centro com sua mãe. Ele tinha a as sobrancelhas grudadas, barba serrada, cabeludo nas costas e peitos, parecia um homem das cavernas, usava oculos pretos, quadrados de lentes grossas, os dois aros colados com esparadrapos, que ele tirava para jogar ficando completamente cego, chutando a bola e adversários juntos. Ele já chegou com a bola ensebada, tinha passado no açougue e vinha com um pedaço de sebo passando nela. Aquela linda bola de couro era de arrepiar qualquer um, e para quem jogava com qualquer coisa que rolasse, seria dia de clássico.
Neste dia tinha mais gente do que de costume. Imagine uma bola de couro novinha já ensebada, eram mais 20 para cada lado. Quando o jogo já estava chegando no fim, alguém chutou mais forte e ela foi parar no pátio do “velho de guerra”, que voou na bola como o Manga, goleiro do Inter, sem deixar que a bola batesse no chão. Neste pequeno instante em que agarrou a bola, o Gauchão sentiu-se o goleiro da seleção e ao mesmo tempo “viajou”, voltando ser criança outra vez, fazendo parte daquele jogo, sendo o herói dos goleiros. Aquela cena aconteceu como se fosse slow-motion, eternizando aquele misto de auto-admiração e gostinho de vitória de ver nossa cara arrasada de perdedores. Mas para não “perder-se em si mesmo”, rapidamente puxou seu facão e bateu forte na bola, mas o facão bateu no couro e voltou contra a testa do gaúcho, que agora estava sangrando. Então, num misto de humilhação e ódio, com o sangue descendo pelos olhos, nariz, no seu bigodão e queixo já molhando, bateu com o facão novamente na bola e, novamente, o facão quicou na bola voltando contra sua testa fazendo um V de uns 10 cm. Dizem que ele levou dez pontos em cada talho. O Velho Coronel ficou totalmente louco. Com a mão direita levantava o facão e com a outra, com o punho fechado, virou-se contra os times que já saiam em debandada, todos rindo felizes com a situação do Coronel louco, que a partir deste dia começou a usar uma fita vermelha amarrada na testa para esconder o V da vitória dos dois times.
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