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quinta-feira, março 13, 2025

Estado Alterado de Consciência


Desde que vocês desceram das árvores e começaram a andar sobre duas pernas, carregam uma inquietação na alma: a necessidade de alcançar um "estado alterado de consciência". Querem escapar dos limites da carne, do peso do tempo e da solidão de serem humanos em um universo que se recusa a revelar seus segredos.

Eu vi os primeiros Homo sapiens mastigando raízes alucinógenas sob a luz das fogueiras, dançando até o amanhecer para conversar com deuses invisíveis. Observei os xamãs beberem chás que rasgavam o véu do mundo, trazendo mensagens dos antepassados e dos espíritos da floresta. E vi algo ainda mais sombrio: o êxtase do sangue. No primitivismo, a consciência era alterada também pelo sacrifício no fogo — homens, mulheres, crianças e animais eram oferecidos aos deuses, numa entrega que mesclava terror e transcendência. Em meio a esses rituais, muitas vezes surgia o ópio como uma forma de anestesiar as dores da existência. O sofrimento e a morte se tornavam pontes para outra realidade, um transe violento onde o espírito se despregava do corpo e tocava o desconhecido.

Hoje, trocaram as cavernas por bares iluminados a néon; as ervas sagradas, por drinques amargos; os tambores ancestrais, por raves e playlists do Spotify. Já não imolam corpos nos altares, mas continuam a se destruir — de formas menos ritualizadas, mas igualmente desesperadas.

A modernidade lhes deu conforto, mas não respondeu ao vazio que lateja no peito. Então, seguem navegando em barcos furados: o álcool, a pior de todas as drogas, que queima a garganta como um falso abraço; o cigarro, que afoga em nuvens efêmeras; o sexo e a masturbação, que viram fuga em vez de encontro. Há quem roube não por necessidade, mas pelo prazer frio de sentir algo — nem que seja o tesão de ser pego. Outros jogam suas vidas em jogos do Tigrinho e de pôquer, como se o azar do dado pudesse preencher a sorte que falta por dentro.

E, no meio desse furacão de vícios e desesperos, vejo a maconha flutuando como uma folha verde no rio. Não é santa, não é demônio. É apenas uma planta medicinal que acalma, distrai e, às vezes, ilumina — mas que, como tudo na vida, pode ser usada para fugir da jornada, em vez de contemplá-la. Comparada aos pervintins, e à lança perfume trazidas pelos militares na ditadura, ou ao crack e à cocaína, que corroem ruas e almas, ou ao álcool, que mata e transforma lares em campos de batalha, ela parece um desvio mais suave, menos nocivo.

No fim, talvez sejam todos viajantes clandestinos, buscando esse estado alterado de consciência para um céu que não existe. O que muda é o mapa: alguns tomam ayahuasca na selva, outros apertam um baseado na janela do apartamento. Porém, a pergunta que nunca cala não é sobre a substância, mas sobre vocês mesmos: para onde querem fugir? Ou melhor, que parte de vocês ainda não conseguem encarar de frente, sob a luz crua do dia?

A Terra já não é a mesma, mas o homem — ah, o homem! — continua a mesma criança assustada, acendendo fogueiras na escuridão, tentando encontrar sentido na fumaça. Eu sei. Eu sempre estive aqui. Eu vi.




quinta-feira, março 06, 2025

Sombras no Quintal

O Peso


Morro da Lagoa da Conceição – Agosto de 2003



— Alô, Jesus? Aqui é a Heliana. Escuta bem o que eu vou te falar: o Victor não é teu filho. O Victor é filho do teu pai!

A frase caiu como um trovão. Jesus ficou em choque, sentindo as bases de sua vida desmoronarem.

Lembrou-se, como se fosse ontem, de uma noite na década de 70. Voltava para casa bêbado, como de costume, no último ônibus da linha Vila Cecília/Viamão. Mas aquela noite era diferente. Não brincava, falava ou ria como geralmente fazia. Estava calado, absorto em pensamentos.

O ônibus não estava cheio, mas quase todas as poltronas estavam ocupadas. Ele se sentou logo após a catraca. De repente, risadas e gritos vieram do fundo do veículo. Um grupo de jovens o chamava de “corno”, debochando sem pudor. Ele fingiu que não era com ele, fechou os olhos e tentou parecer que dormia.

Quando desceu no ponto, ouviu novamente:

Corno!

Mais risadas.

O sangue ferveu, mas ele pensou: Capaz que sou corno! Minha mulher, a Heliana, é super caprichosa, cuida tão bem das nossas duas filhas, da casa. Nunca sai de casa. Isso nunca poderia acontecer. E o meu pai... Passa o dia lá, plantando no quintal... Só não lembro exatamente o que ele planta.

Os dias passaram, mas as provocações martelavam sua cabeça. Incapaz de ignorá-las, Jesus contou a Heliana o que aconteceu no ônibus. Assim que terminou, ela empalideceu e disse, quase em pânico:

Nós vamos embora daqui!

Heliana entrou em contato com o tio Tobias, que tinha um caminhão de mudanças. Em poucos dias, a família se mudou para a casa dos pais dela.

O novo lar era precário. Uma das paredes estava inacabada, aberta para o céu. O pai de Heliana, Seu Noé, improvisou um quarto para eles, fechando parte de sua oficina de ferreiro. Passava os dias entre a marreta, ferros em braza a bigorna e a cachaça.

Heliana odiava o pai profundamente. Quando ele bebia e brigava com a mãe, ela o enfrentava com unhas — e até cuspidas. Era uma relação marcada pelo rancor e pelo ódio ao pai alcoólatra, a mesma enfermidade que acometia Jesus.

Certo dia, ele ouviu Heliana conversando com a mãe:

Estou grávida de novo.

A mãe, resignada, respondeu:

Onde comem dois, comem três.

Jesus ficou inquieto. Grávida? Como? Ela sempre exige camisinha. Só se rompeu...

Meses depois, Victor nasceu. Quando o menino já estava maior, a família foi à pracinha em frente à igreja Nossa Senhora do Trabalho. Enquanto Victor brincava no balanço, Heliana comentou:

Já notou que filhos de pais bem mais velhos que as mães são muito mais bonitos?

Jesus ficou desconcertado. Ela acha que nosso filho não é bonito?

Além disso, Heliana repetia como um mantra:

— Só as mães sabem de quem são os filhos. Os pais nunca têm certeza.

O comentário reverberava em sua mente, mas ele engolia tudo em silêncio. Muitos anos se passaram.

Então, seis anos após a separação, veio a ligação.

Alô, Jesus? Aqui é a Heliana. Escuta bem o que eu vou te falar: o Victor não é teu filho. O Victor é filho do teu pai!

O chão sumiu. Em segundos, sua mente revisitava todas as noites voltando bêbado, as manhãs evitando cruzar com o pai no quintal. Como uma sombra, ele sempre estava lá, capinando. Havia acabado de se aposentar da Marinha. Tinha cinquenta e poucos anos, nunca bebeu, nunca fumou, era bem jovem para a idade que tinha.

Agora fazia sentido. As risadas no ônibus. Os comentários de Heliana. Tudo.

O filho que ele tanto amava — o único homem entre as três meninas — não era seu. Era de seu pai.

Num instante, Jesus perdeu um filho e um pai. Pensou em matar o velho que tanto admirava, o pai que o inspirara com histórias de marinheiro e aventuras pelo mundo. Jesus também sonhara em ser marinheiro, mas Heliana engravidara antes que ele pudesse realizar esse sonho. Agora, tudo estava destruído.

Desesperado e chorando, vagou pelo centro de Florianópolis, pensando em tirar a própria vida ou acabar com a de Heliana e de seu pai. Foi quando, por acaso, entrou em uma farmácia homeopática. A farmacêutica, percebendo seu estado, pegou suas mãos e perguntou:

O que está acontecendo?

Chorando, Jesus desabafou todo o sofrimento. A mulher ouviu em silêncio. Quando ele terminou, ela disse:

Meu filho, esse peso não é teu. Solta ele agora. Esse peso é deles, do teu pai e da tua ex-mulher.

As palavras foram como um milagre. Jesus sentiu um alívio inesperado. Era verdade: aquele peso não era dele...


domingo, agosto 13, 2023

APAGAMENTO

Jesus me disse que acordou assustado, com uma dor de cabeça insuportável e louco de sede em um lugar horrível, escuro, iluminado por uma lâmpada muito fraca, esfumaçado e fedorento. Viu que havia outros homens, aparentemente mendigos, maltrapilhos e desgraçados. Aos poucos, percebeu que estava em uma cela de um presídio. Não conseguia compreender nada, tudo era confuso.


Ficou quieto em um canto, desejando loucamente um cigarro, mas não queria pedir. Supôs que os homens presos ali eram ladrões, assassinos, traficantes, ou que estavam ali pela lei Maria da Penha. Pela maneira que eles falavam entre si eram bandidos de longa data, acostumados com a ida e vinda no presídio, já que tinham tatuagens e trejeitos de quem já conhece o ambiente. Uns tinham o olhar frio, distante. Outros encaravam diretamente, sem expressão ou com um olhar de ódio. Tentou forçar a memória e lembrar porque havia sido preso. Lembrou que tudo tinha acontecido na sexta-feira pois recebeu seu salário semanal. Lembrou que foi pro bar e gastou todo seu dinheiro em cerveja. Ficou sentado ali no chão, no piso frio e sujo, próximo do que chamavam de 'boi'. Um cheiro insuportável dificultava o esforço mental para recordar o que tinha acontecido.

O sábado passou muito rápido. Nem viu o tempo passar. No domingo à tarde teve coragem para perguntar ao carcereiro se a esposa ou a sogra haviam deixado alguma carteira de cigarros ou qualquer outra coisa para ele. O carcereiro respondeu com uma expressão de nojo, cuspindo no chão:

"Cara, tu matou sua mulher e tua sogra, não lembra?"

Ficou em choque. Não conseguia acreditar no que estava ouvindo. 

Não lembrava de nada. O carcereiro explicou que havia sido preso por tê-las matado a facadas. Ele amava a esposa, ela era a pessoa mais perfeita, íntegra, honesta, trabalhadora... era loucamente apaixonado. A sogra era a bondade toda dentro dela. Uma mulher religiosa, caridosa que atendia todo mundo com muito carinho e tinha os acolhido em sua casa depois que ficou desempregado. 

Jesus não conseguia acreditar. Logo ele que nunca havia feito nada de errado na vida. Um homem bom, trabalhador, honesto, um marido e genro amoroso. Ele não conseguia entender como poderia ter feito algo tão terrível.

Foi levado para uma sala de interrogatório e foi interrogado pela polícia por horas. Ele tentava explicar que não lembrava de nada, mas eles não acreditaram. Os policiais disseram que estava mentindo, tentando encobrir seu crime hediondo. Foi levado para o tribunal e condenado à pena máxima por duplo homicídio, sem a possibilidade de liberdade condicional.

Ele agora está há 10 anos na prisão. Ainda não lembra de nada do que aconteceu naquela noite. Todos os dias ele quer desesperadamente descobrir a verdade. Quer saber se realmente matou a esposa e a sogra. Precisa saber se é um monstro.

quarta-feira, julho 13, 2022

AVANTE


Não te sinta vencido a nenhum vencido

Nem te sinta escravo de outro escravo.

Tremendo de pavor, sinta-se bravo e arremete  mesmo que ferido. 


Proceda como Deus que nunca chora ou como lúcifer que nunca reza. Ou como o Carvalho que com sua grandeza necessita de água mas não implora! 


Tenha a sagacidade de um prego enferrujado que mesmo velho e torto, volta a ser prego.


Não se acovarde como o pavão que encolhe sua penagem ao menor ruído.


Morda, grite, vocifere bravamente, mesmo rolando pelo chão sua cabeça! 


- um dia escutei, gravei e divido com vocês! 



segunda-feira, outubro 03, 2016

Hot Show

Dupla Jornada.
Hot Show, minha loja na Rua Augusto Pestana, 54, em frente ao Pronto Socorro, entre duas funerárias na Avenida Venâncio Aires e Avenida Oswaldo Aranha, no Bom Fim, era um dos pontos mais badalados de Porto Alegre. O ano era 1985, o auge do bairro, onde tudo acontecia. Depois das dez da noite, quando eu ia até a loja para recolher a produção nas sextas, sábados e domingos, a rua ficava lotada de magrinhos e magrinhas do Bonfa – só gente bonita. As gurias, como diziam Kleiton e Kledir, "literalmente estavam tri a fim". Além das máquinas de fliperama, havia duas mesas de sinuca na parte de trás, onde rolavam campeonatos acirrados, com disputas por troféus!





Eloy Figueiredo / Baru Derkin

Sucursal de O Globo em Porto Alegre, 1980 

Baru Derkim, além de um grande repórter fotográfico, adorava desenhar.  

quinta-feira, setembro 29, 2016

Ernesto Meyer Filho/JB


Conheci Mayer Filho, um artista extremamente fascinante, enquanto trabalhava na sucursal do Jornal do Brasil em Florianópolis. Passamos diversas tardes tomando chopp juntos e discutindo animadamente suas teorias sobre a existência de vida em outros planetas, sempre no balcão do Box 32 do mercado público.



Ernesto Meyer Filho. By Eloy Figueiredo.

terça-feira, outubro 13, 2015

O Globo


A vibrante sucursal do Jornal O Globo, no 2º andar do edifício do Relógio na Rua da Praia esquina com a rua da Ladeira, era um microcosmo da cidade de Porto Alegre. A equipe, formada por jornalistas, fotógrafos e o comercial com Setembrino Machado era composta por pessoas de diferentes origens e experiências, que trabalhavam juntas para produzir um jornalismo de qualidade.

Os fotógrafos Gerson Schirmer, Baru Derkin, Eduardo Guimarães e o Santinho eram responsáveis por registrar os acontecimentos do estado. Schirmer, um dos mais respeitados fotógrafos do Rio Grande do Sul, era conhecido por seu olhar apurado e sensibilidade. Derkin era um especialista em fotojornalismo esportivo e adorava fazer caricaturas, e Guimarães era um mestre em retratar a vida cotidiana dos porto-alegrenses. O Santinho, era um fotógrafo popular que tinha um talento especial para captar o humor e a ironia da vida urbana.

A redação da sucursal era composta por jornalistas experientes e talentosos. O chefe era o Tito Tajes. André Jockman, era um jornalista respeitado por sua integridade e profissionalismo. Paulo Gerson Antunes de Oliveira, o chefe de reportagem, era um jornalista dinâmico e criativo. José Adaltho de Vasconcellos, o repórter especial, era um especialista em política. Félix Valente, o repórter de polícia, era um jornalista corajoso e comprometido. Enio Staub, o repórter de economia, era um jornalista experiente e competente. José Zulian, o repórter de esportes, era um apaixonado pelo futebol. Valci Zucoloto, a repórter, era uma jornalista antenada com as tendências. Higino Barros era  habilidoso e criativo.


Eloy Figueiredo e José Figueiredo

 Figueiredo 
sucursal de Porto Alegre de O Globo

Eloy Figueiredo
André Jockmann na primeira Fenachamp

Eloy Figueiredo
O Globo

Dr. Rogério Marinho, governador Amaral de Souza, Tito Tajes, eu e Setembrino Machado.  




sábado, agosto 22, 2015

editora expressão




       


A Editora Expressão, fundada em 1990, buscava preencher lacunas na cobertura nacional, destacando-se por suas publicações pioneiras no Sul do Brasil. Notavelmente, o Guia de Sustentabilidade, incluindo o premiado Prêmio Expressão de Ecologia desde 1993, reconhecido como o principal do país no setor empresarial, certificado pelo Ministério do Meio Ambiente.


segunda-feira, fevereiro 20, 2012

SOBREVIVI




Quando criei este blog, pensei que não haveria retorno para mim. Apenas quem viveu o que eu vivi pode afirmar com certeza: a vida é linda! A intenção era compartilhar experiências reais, algumas tão surreais que pareciam "viagens", narradas para aqueles que viriam depois de mim.


No entanto, ao descobrir que minha vida continuaria, interrompi as publicações para preservar minha imagem da saga de "Jesus me disse". Guardo relatos para compartilhar com amigos, ex-amigos e aqueles que planejo reencontrar, buscando perdão e evitando ferir qualquer ser novamente. Pessoas que contribuíram para minha jornada terrena, como a trama da TV Cabo, o cachimbo do Acari Amorim, Zuba Coutinho da revista *Expressão*, Olívio Lamas, Carlão do *JB*, o presidente Collor, Ademar Bem Johnson, Zé Netto do *DC*, Gerson Schirmer no Canto da Lagoa, Eduardo Paredes, em uma viagem com Jesus na Lagoa, Marco Cezar da *Mural*, o delegado Eloy, entre outros grandes amigos.


Quem sabe? Talvez uma nova fase mais animada esteja por vir.

25/10/2005





Ilha das Flores
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