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terça-feira, março 31, 2026

RECAÍDA

imagem IA Google.

Para Vani 

Jesus estava limpo havia quase três anos, limpo como quem sai de um incêndio ainda cheirando a fumaça. A terceira internação no hospício tinha deixado marcas que não apareciam na pele. Nessa internação já não aplicavam eletrochoque nos drogados e alcoólicos.

E então veio a recaída.

Estava só. Brutalmente só.

A ex-mulher não deixou margem para ilusão: não volte para casa. Não era mais a sua casa, não era mais nada. O que tinham vivido durante 14 anos nunca foi luz, só sirenes, barulho de garrafas quebradas cortando a madrugada, gritos e choro acumulado nos cantos. Um amor que apodreceu com o alcoolismo.
E o mundo lá fora também não ajudava. Anos 80. O desejo de sexo circulava como moeda, e a pandemia da AIDS começava a cobrar seu preço, silenciosa, desconhecida, assustadora e mortal. Porto Alegre era considerada a capital da AIDS. Não só pelos gays, mas pelos viciados em compartilhar seringas. Todos os dias tinha notícia de algum amigo morrendo. Os alcoólicos morriam de paulada, pedrada, facada, garrafadas e cirrose. Os outros, suicídio e AIDS. Era uma tristeza só, jovens bonitos morrendo todos os dias.
Logo agora, pensava Jesus, justo agora que o corpo pedia vida, excesso, carne. Agora que ele podia pegar todas, estava solteiro e sóbrio, tinha que se conter. Era quase uma piada suja do destino.
As casas de dance e rock brotavam por Porto Alegre como feridas abertas. Luzes, fumaça, suor, música alta, Lanterna dos Afogados, dos Paralamas, suficiente para calar qualquer consciência. Todo mundo saindo dos armários.
E as magrinhas, elétricas, famintas, pareciam chamar por ele. Injustiça. Uma tremenda injustiça.

Numa noite fria de começo de inverno, caminhando pelo Menino Deus, ele e um amigo — desses que não pedem licença para existir,  avistaram duas mulheres saindo de uma casa de shows. Bonitas e felizes. Estilosas como quem sabe exatamente o efeito que causa.
O amigo foi primeiro, claro. Era um predador elegante. Aproximou-se delas na calçada da Av. Getúlio Vargas como quem já conhece o final da história.
E então aconteceu.
Eu vi. Eu senti. Eu caí.
Ela.
Linda de um jeito que não pede aprovação, com um sorriso contagiante. Elegante sem esforço. Olhar inteligente, vivo. Charmosa, perigosamente charmosa, quase um vício novo. Magnética. Envolvente. Daquelas que puxam tudo ao redor sem fazer força. Mas havia algo que não encaixava — como se aquela cena já tivesse acontecido antes e ela apenas repetisse um papel que conhecia bem.
Foi imediato, um golpe seco. Amor à primeira vista, se é que isso existe, ou apenas mais uma forma sofisticada de perdição.
Jesus se apaixonou ali, sem defesa, sem estratégia. Como quem já estava condenado e só esperava a sentença. Ela claro, só podia ser o amor da vida dele. Ou a ruína final. Às vezes dá no mesmo.
Ela nos convidou para ir até sua casa ouvir uns discos e beber alguma coisa, já que era cedo e estávamos perto de seu apartamento. Sempre é perto quando o perigo convida. Jesus também já morava por ali na Av. Silvério, coincidência ou armadilha, tanto faz.
Jesus avisou: não bebia. Não estava bebendo. Ponto final. O resto, o buraco, o fundo do poço, o nome disso tudo, ele guardou para si.
Ela não demonstrou surpresa. Apenas inclinou levemente a cabeça, como quem arquiva uma informação para usar depois.
Ela sorriu como quem não acredita em limites. Italiana. Serviu vinho. Segurava a taça com delicadeza, mas não bebia de imediato, girava o líquido devagar, observando, como se houvesse algo ali além do vinho.
— Você não bebe? — perguntou, sem pressão.
Jesus negou.
Ela sustentou o olhar por um segundo a mais do que o normal. E convidou os dois para ver uma coisa.
Levou até uma porta. Abriu.
Uma adega climatizada com mais de 500 garrafas. Rótulos, cores, vinhos, champagnes, whiskies, de várias datas, coisa de colecionador.
Jesus viu aquilo e quase caiu para trás. Arrepiou inteiro. Ficou sem ar. Voltou quase correndo para a sala.

Mesmo indo em uma reuniões de AA, ela não conseguia acreditar que Jesus não podia tomar uma tacinha de vinho no jantar.
Mas havia algo nela de mistério. 
Ela, intensa, segura, quente, dona de si. Sabia exatamente o que fazia, e fazia devagar, sem pressa, como quem gosta do caminho tanto quanto do fim.
Foi ela que mostrou os caminhos do clitóris.
Sem discurso. Sem romantizar.
Pegava a cabeça dele com as duas mãos, firme. Guiava. Encostava, rebolava como uma serpente, afastava, voltava de novo. Como quem ensina um vício bom. Às vezes lenta, quase cruel na demora. Outras vezes acelerava, sem aviso, sem piedade.
Ela sabia onde tocar, quando parar, quando insistir.
E aquilo virava um tipo de febre.
Horas. Noites. Dias atravessados.
Nada delicado demais, nada inocente. Era sexo, respiração, vontade. Era perder o controle e gostar disso.
Jesus nunca tinha vivido aquilo.
Nunca tinha sido conduzido assim.
Nunca tinha sido tão tomado.
E, no meio disso tudo, ele achava que estava seguro.
Jesus, durante esses dois anos de abstinência, nunca tinha se sentido tão amado, não só por ela, mas por toda a família. Tratavam ele como se fosse um astro, alguém importante. Nunca tinha se sentido tão amado, tão seguro.
Era uma família típica, dessas que a gente vê em filmes de italianos, meio máfia, meio exagero, mas cheia de presença. Era mais ou menos assim que Jesus se sentia. Uma segurança que ele nunca tinha experimentado.
Jesus era o homem mais satisfeito e feliz do mundo.

Dois anos depois, foram convidados para passar a virada do ano na casa de um irmão, no morro Santa Teresa.
Perto da meia-noite, veio o brinde.
Jesus pegou uma taça de cristal com champagne. Só para brindar.
Fogos estourando. Luz, barulho, gente rindo.
Tim-tim.
E ele bebeu...
Foi imediato. Foi uma explosão na cabeça.
Como se fosse o primeiro porre da vida. Tudo ficou mais bonito, colorido. Bocas abertas, dentes brilhando, tudo leve demais.
Jesus lembra de tudo dessa noite. Uma das mais lindas do mundo.
Lembra também que, às cinco da manhã, estava com um engradado de Brahma, 24 garrafas, que ele mesmo foi buscar para continuarem bebendo.
Depois disso, foi ladeira abaixo.
Parou de trabalhar no seu jornal de bairro da zona sul. Entregou a loja de fliperama para o cunhado e passou a viver escondido na adega do apartamento dela.
Ela descobriu. Passou a trancar. Esconder a chave.
Jesus sempre encontrava.
E se trancava na adega, bebendo até desmaiar.
Em três meses, bebeu toda a adega caríssima dela.
Vivia se escondendo, com vergonha de encontrar algum conhecido e ser visto daquele jeito, recaidasso. Logo ele que falava pra tudo mundo que nunca mais iria beber. 

Estava perdendo a mulher. 

Passava os dias jogando sinuca em bares de pé sujo. Só chegava em casa para desmaiar. E no outro dia, recomeçava tudo de novo.
Quando acordava, a cama tremia. O corpo tremia. Tremia tanto que ele não conseguia se levantar sem o primeiro gole — sempre deixado na garrafa ao lado da cama.
Era necessidade.
Ele precisava sumir de Porto Alegre. Tinha que dar um tempo.
Pensava em ir embora para Santa Catarina, fazer a fuga geográfica, voltar para sua terra natal.
E teve sorte.
Numa tarde, precisou ir até o centro da cidade e encontrou um colega que trabalhava no Jornal do Brasil.
Conversando, falou da vontade de ir para Florianópolis.
O amigo não pensou duas vezes: convidou ele para assumir a sucursal do jornal em Santa Catarina, que estava descoberta. Jesus era muito bom no que fazia. 
Caralho. Era muita sorte.

Era tudo que ele precisava.
Um baita salário. Prestígio. Recomeço.


Florianópolis,  novembro de 1988. Doidão.

8 comentários:

Anônimo disse...

Para minha grande surpresa encontro esse blog com essa cronica magnifica.
A vida é realmente uma caixa de surpresas. Nao imagina que entre teus talentos, que eu ja vonhecia, eTqva também o escritor. Quero mais. Quero o livro.

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Anônimo disse...

Angustiante!!

Anônimo disse...

Muito obrigado, Nara Lisboa

Anônimo disse...

Intenso, sujo e verdadeiro. Difícil de largar depois que começa. Mariana

Anônimo disse...

Muito emocionada! Realmente é muito desesperador sentir a recaída... a narrativa atual com tanta consciência e dor!

Anônimo disse...

Muito bom, Eloy. Senti o gosto da recaída...que nunca passei. Serve de alerta. Abração, Guto.

Anônimo disse...

Bha eloy meu querido , ouvi muitas histótias de Recaidas ...Mas ésta é classica com chave de ouro ...uma Adega e uma Deusa tudo que um adicto que acha que está em recuperação e pronto pra encarar mundo como ele é ...mas Só Por hj ja passou e depois de uma recuperação vem as Faturas mais Caras ..Mais uma provação que ambos passamos ..mas n usamos e brindamos com a Oração da Serenidade a Vida ..abç Paulo Antônio