Ao longo da vida, o autor esteve diversas vezes diante de si mesmo. Em alguns momentos, por escolha; em outros, por imposição das circunstâncias. Nunca se orientou por planos rígidos. Preferiu seguir os caminhos que surgiam, mesmo quando estes não ofereciam garantias ou boas perspectivas.
Durante anos, o álcool fez parte desse trajeto. Inicialmente percebido como companhia, transformou-se, com o tempo, em um fardo. A interrupção do consumo revelou um desafio maior: lidar com o que vinha depois. O silêncio, as memórias e os erros tornaram-se mais evidentes. A vida sem anestesia exigiu atenção constante.
No percurso, relações afetivas ficaram pelo caminho. Algumas começaram de forma promissora, outras foram intensas, e houve aquelas que apenas foram possíveis dentro de um determinado contexto. Nem todos os términos ocorreram por ausência de sentimento. Muitos aconteceram pela incapacidade, naquele momento, de sustentar e cuidar dos vínculos. Hoje, não há ressentimento. Cada relação deixou marcas distintas: aprendizado, limites, afeto e, em alguns casos, saudade.
Também ocorreram afastamentos familiares. Não por conflitos explícitos, mas pelo acúmulo de silêncios e questões não verbalizadas. O tempo passou, e as distâncias permaneceram. A experiência trouxe a compreensão de que nem tudo se resolve e de que algumas histórias seguem sem um desfecho conciliador.
Em etapas mais recentes, surgiram novas interrupções impostas pela vida: exames médicos, diagnósticos e a espera por um transplante. Esses períodos provocaram uma mudança de perspectiva. Detalhes antes ignorados passaram a ganhar relevância, o modo como as pessoas se expressam, a percepção do tempo mais lento e o valor das coisas simples.
O relato não se propõe a ensinar ou moralizar. Trata-se de um registro, semelhante ao de quem documenta uma viagem para não perder a memória dos caminhos percorridos. O passado não é idealizado, tampouco negado. É reconhecido como parte fundamental da trajetória até o presente.
Ao final, o autor não se define como alguém que venceu. Define-se como alguém que atravessou. Com erros, perdas e amores deixados pelo caminho, mas também com os aprendizados que cada experiência proporcionou. E isso, por si só, já constitui uma história digna de ser contada.


2 comentários:
👏👏👏🙏
Insista, persista e nunca desista!
Da companheira de AA, Carla O
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