domingo, julho 30, 2006

Negro Argentino.




Estive em São Borja no inicio de 1985 e depois em 1987. Na primeira vez, levei dois exilados do grupo Argentino Los Montoneros (um editor e um médico patologista) para atravessarem a fronteira por ali. A cidade de São Borja está localizada na região da campanha do Rio Grande do Sul. Esse município é distinto devido à existência de grandes estâncias onde há a presença do gaúcho típico. Nas rodas de chimarrão, nota-se uma demonstração da famosa hospitalidade gaúcha, onde quase sempre, são contados os “causos” de guerra e de valentia. Fora deste ambiente de galpão, são silenciosos e desconfiados, como é a característica de todo homem fronteiriço.

Dois dos maiores pecuaristas e latifundiários do município são da família Goulart e Vargas, coincidentemente os dois foram presidentes do Brasil. Para percorrer os limites dentro de suas terras, a cavalo ou de carro, levam-se dias. Só sobrevoando por vários minutos sobre suas fazendas que atravessam até três municípios: Uruguaiana, São Borja e São Luis Gonzaga até o Rio Ijui. Do outro lado rio já é de outros latifundiários capitalistas, donos dos cartórios, juizes e como sempre, de deputados e senadores. O Pampa é realmente maravilhoso. É mais ou menos como quando se olha o horizonte no mar, a diferença é que lá é só campo até perder de vista, onde a qualidade das carnes de gado é muito famosa em quase todo mundo: O gado não faz esforço nenhum para subir ou descer, é tudo plano, portanto, suas carnes são macias e sem músculos.

Na fronteira com Argentina, nesta região, não há negros ou até tem uns poucos, mas na Argentina, não existem mais nenhum - eles foram impiedosamente exterminados, os que moram hoje lá, não nasceram no país. Quando começavam as guerras por disputas de terras entre os latifundiários brasileiros e argentinos, eles armavam um circo como se fosse uma guerra de soberania entre os dois países. Formava contingentes de guerra entre a peãozada das fronteiras, louca por uma peleja, esportezinho de guerra para descarregar as baterias, e sempre existia a possibilidade do estupro das gurias puro-sangue argentinas, com a pele clara, cabelos loiros, ancas de potrancas, peitos firmes e mamilos rosados que cruzassem seus caminhos. Isto é o que mais os motivavam, já que eles estavam cansados de só “barranquearem” as éguas e ovelhas, tesãozinhas da fazenda. E, como sempre, os negros que iam à frente das batalhas pelos dois lados, com ordem de não voltarem sem ganharem à guerra. Os feridos ou estropiados que voltavam não tinha perdão, eram passados na “adaga”, não tinham tempo a perder com estes “negros trastes à toa”. Só quando chegava o Exercito Brasileiro, fortemente armado e treinado, é que a gurizada paisana entrava em campo, animada e motivada com a possibilidade sexual.

Outra característica, coisa que me chamou a atenção, foi a profissão de “Patiero”. Era normal até a década 60, eles terem do lado de fora da casa, no pátio, homens fazendo segurança, cuidando das casas como cachorros. Depois dessa década é que eles foram trocados, jogados literalmente para o outro lado da cerca e não puderam voltar nem para cobrarem seus direitos trabalhistas (eles nem sabiam que tinham. E quem sabia, ficava quietinho). E nem se quisessem voltar poderiam, afinal, os guaipecas e pastores alemães por quem foram trocados, não os deixavam se aproximarem. Quando pediam umas sesmarias de terra, um lotezinho para plantarem meia dúzia de aipim, umas folhas de alfaces, milho e feijão, em troca dos anos de guerras e trabalho... eram literalmente corrido da região, com fama de comunistas safados, marcados no lombo.

Buena tchê, contei tudo isto, para chegar ao "causo" principal:
Eu ficava hospedado no Hotel Charrua, que nesta época era do Grupo Ipiranga, fica em frente da praça central. Um dia, antes de vir embora, quis comprar umas lembranças da cidade e fui mais uma vez até a banca de revistas que fica em frente do hotel, no meio da praça, onde eles vendiam entre outras coisas bombas de chimarrão, cuias, facas imitando prata, chaveiros e postais. Fiquei olhando os postais das atrações turísticas, as sepulturas do Getulio Vargas e do Jango Goulart, o cemitério Paraguaio e uma outra, do tumulo da Maria do Carmo, adorada como santa. Eram feios demais como lembrança. Perguntei para o dono da banca se ele tinha alguma sugestão. Ele me falou que tinha os livros 2 e 3 da série “Rapas de Tacho” do escritor são-borjense Apparicio Silva Rillo. Eu disse a ele que conhecia o Apparicio e perguntei se ele estava na cidade, mas ele não sabia. Comecei a folhear o numero 3 e vi que tinha uma dedicatória do autor, que diz: “Causos de São Borja e do Rio Grande, com abraço do autor, Rillo” e a data de 15.11.85 (data da primeira eleição direta, num município considerado área de segurança nacional). Perguntei a ele quanto custava os livros (imaginando que este fosse custar uma fortuna) e ele me disse: - Este aí, que ele estragou escrevendo nele é 15, o outro que está novo é 25 "pila".
Comprei os dois.
Depois, descobri que o Rillo mantinha um escritório junto de uma empresa de contabilidade, no centro de São Borja. Contei a ele o acontecido e demos boas risadas para mais um causo, onde agora, o autor fazia parte.
.

17 comentários:

rachel disse...

História interessante essa de hoje Eloy. Nunca pensei nessa ausência de negros na fronteira com a Argentina, nem sobre a profissão de cães de guarda, nem um monte de coisas que vc menciona... Agora, a história do livro "estragado " pelo autor foi inusitada. rsrsrsrs

Livre Expressão da Lucilaine disse...

Sabe Eloy, às vezes lendo seus contos dá vontade de ter vivido o que conta, ou ser sua personagem.
Os livros por exemplo, era eu quem tinha que ter comprado...

Beijos querido!

Lu
ps: leia no meu blog Amigo? de ontem e o de hoje Sorriso .... você não vai me aguentar pq tô escrevendo todo santo dia. Vamos ver se começando as aulas esse ritmo diminui.

Anônimo disse...

Muito bom, mas muito bom mesmo o blog meu caro Eloy.
Um abraço "quebra costela".

Leonel

Fabricio Kusbick disse...

Parabéns pelo seu blog. È de valor, como diriam na fronteira.
Gostei de ver lembrado o Silva Rillo, que fez inúmeros registros de causos riograndenses em livro.

claudia aguiar disse...

Você éum exímio contador de causos.Mesmo com a distãncia do tempo e do lugar faz agente sentir o cheiro e as texturas da história.beijos!
claudia
ps:faz um obséquio?Dê uma olhadinha no blog que comecei,tem um conto começado.
http://clauaguiar.blogspot.com

Sofia disse...

"...me sentei, pequena, à tua sombra, e encantada, me embriaguei com tuas palavras que surgiam vertiginosas. Elas escapavam caudalosas de tua pena, como se vertessem de tua boca...eu - calada, suspensa em teu universo, temendo que se respirasse, a magia pudesse se desmanchar no ar...Estive com você - oniricamente. Acaso sentiu?"

Anônimo disse...

Eloy, como um "nascido" em São Borja, fizeste voltar meu pensamento...Praça da Lagoa(brinquei muito), a história dos negros, que não é muito diferente de outros lugares, mas com suas peculiaridades, as quais citou algumas e a História Oficial não registra. Maria do Carmo, cantada em versos e prosas, antes uma prostituta qualquer...E o Apparicio Silva Rillo, conhecedor das palavras, dos versos, das prosas e das músicas...Suas "letras" mostravam e mostram a cara do povo, inclusive da Maria, que era do Carmo, que era dos homens, que virou "santa". Belíssimo, Eloy....Essa terra dos "Presidentes" tem história....rsrsrsrs....E tem negros.

Anônimo disse...

Pronto! Aprendi a postar só prá dizer que adorei. Matei as saudades dos pampas!

Pankwood disse...

Blog dahora !!! Ta afim de linka ?

Isac disse...

Olá! Primeira vez neste blog após um convite que recebi pelo Orkut. Li alguns textos gostei bastante. Esse causo do livro é fabuloso rs. Volto mais vezes... Mas antes de ir convido a conhecer o meu Blog
www.angeldumal.zip.net
Abraçu du Isac!!!

Verushka disse...

Gostei Eloy, gosto muito da maneira
com que você escreve. Fico só imagi
nando as pessoas e as cenas que você viveu.
Essa de hoje foi demais, pensei que
você ia escrever um causo sobre os
argentinos e de repente...descubro
mais essa sobre a fronteira.
Um grande beijo amigo!!!!

Marga disse...

Gostei!Não sabia deste fato de existirem poucos negros na região da fronteira!Gosto mais qd teus "causos" são aqui, me transporto prá aquela época!!Beijão

EVERYTHINGABOUTME disse...

Essa é a primeira vez que visito o seu blog EloY e adorei o Texto do Negro Argentino. O final é muito interessante, é engraçado como as pessoas desvalorizam o trabalho de outras, ou seja, só pq Rillo não é digamos FAMOSO, ele rabiscou o livro... Muito Bom mesmo!!!! Até MAis

TIncho! disse...

No se portugues xD ! me mataste :P
trata de traducirlo a español :P

Anônimo disse...

Eloy gosto muito dos teus "causos", sempre que recebo tuas informações sobre uma nova história, aqui estou saboreando-as, parabéns!

Fernando Rodrigues disse...

Prezado Eloy, incrivel esta história do "livro estragado, nos possuimos uma revista cultural aqui em São Borja intitulada Armazém da Cultura e gostariamos de divulgar este causo, ou quem sabe você contar para os São-borjenses a sua passagem.
Bom aguardo um contato pelo e-mail jfernandocorrea@yahoo.com.br ou revista@saoborja.tur.br ou no site www.saoborja.tur.br.
Grande abraço no aguardo

Anônimo disse...

Quem disse que nao hs negros na fronteira , isso nao e verdade pois conheco varios naturais da regiao, inclusive os meus parentes.
Donde vcs acham que era o Gregorio Fortunato personagem ativa do governo Vargas ? E claro que nao sao milhares como noutras regioes porem existem sim.