sábado, outubro 21, 2006

GUARDA DE TRÂNSITO


Em 1966 fomos morar na Avenida Prótasio Alves, 5567, no edifício Pioneiro. Confesso que foi um choque já que morávamos no centro (Alto da Bronze) e fomos para um bairro que na época era quase todo mato, dos dois lados, descendo a Prótasio passando para o outro lado da avenida Carlos Gomes, e lá não existia nada. Petrópolis era até o fim da linha do Bonde, que ficava em frente do cine Atlas, então, não sabia muito bem o bairro que morávamos: se era Petrópolis, Vila Jardim, Bom Jesus, Chácara das Pedras ou Paineira. Este último era o nome que eu mais gostava. Em frente deste edifício, os moradores mais jovens se reuniam principalmente nos fim de semana escutar a Rádio Continental, para curtir Elvis, Little Richard, Chuck Berry, Beatles,
Rolling Stone, Roberto Carlos, Wanderléia, Jerry Adriani, Os Mutantes e o Renato & Seus Blue Caps, era o nosso primeiros contato com o Rock 'n Roll. Este era o ano da grande transformação planetária, a partir desta década nunca mais o mundo foi o mesmo. Ficávamos ali mostrando nossas roupas “da hora”, botinhas Calhambeque, pulseiras e anéis com os brucutus dos Fuscas, calças boca-de-sino de duas cores e camisas com as golas altíssimas que minha mãe costurava para gurizada. Colocávamos o toca-discos portátil em formato de maletinha com um grande auto-falante na tampa ou o potente rádio portátil do Dinarte Jackes, um dos “magrinhos” do grupo. Aliás, o nome da turma era a Turma dos Magrinhos. Já éramos olhados como:
- Estes cabeludos... todos maconheiros...

Um dia, encontrei perdido o apito do guarda noturno do Pioneiro. O guarda era o seu Albino, um velho e magro gauchão, ex-policial de trânsito que vivia com sua capa azul marinho de lã, cobrindo até os pés, um bigodão amarelado pelos palheiros fumados e um relho de nervo de pênis de cavalo na mão. Eu comecei a brincar com o apito como se fosse um guarda de trânsito, e, nesta mesma hora, passou um Jipe preto-e-branco (quero-quero) da Policia Civil e eu apitei para eles. Eles pararam e foi uma gargalhada geral, todo mundo riu, até quem não estava no grupo. A polícia nesta época era temida, caía sobre o Brasil neste ano nuvens escuras terríveis da Ditadura Militar. Continuamos brincando todos ali e quando menos esperávamos, eles surgiram: um veio a pé por trás e o outro chegou de Jipe com os faróis altos em nossa direção. Automaticamente joguei o apito no chão, eles chegaram com os revolveres na mão gritando e dando pontapés:
- Todo mundo com as mãos na parede, mãos na parede!!!
Enquanto um dava uma geral em todos encostados com as mãos na parede, o outro perguntava quem era o guarda de trânsito. Ninguém dizia nada. Éramos uns oito, com idades que variavam entre 13 e 16 anos. Eles falaram:
- Já que ninguém quer dizer quem estava apitando vai todo mundo preso!
Abriram a porta do camburão atrás e fomos entrando todos. Aí, os menores começaram chorar dizendo para os policiais: "Foi este aqui seu guarda, foi este aqui..." apontando pra mim. Eles ficaram putos e responderam:
- Já que não falaram quando perguntei agora vão todos em cana!
Foi a maior choradeira dos pequenos. Fomos levados presos para a famosa 8º delegacia, tida como torturadora. Sabia-se que o torturador era praticante de luta livre, o Jangada, um cara que pesava mais de 120 kg. Ele perguntou para os guardas que nós prenderam quem era o guarda de trânsito, sentado atrás de uma escrivaninha. Me empurraram para frente daquele monstro com uma cara de mau que me falou segurando uma palmatória:
- Bota este apito na boca e fica apitando até que eu bata nesta mesa para tu parar, se tu parar antes eu não vou bater na mesa, eu vou bater em ti!!! Vai, começa!!!

Magrinho... fui salvo por minha irmã, a Clara, que entrava na delegacia junto com um monte de mães e pais apavorados para nós tirarem de lá. Os guris menores choravam abraçados em seus pais... Depois de tudo explicado eles iam embora um de cada vez, a bomba sobrou pra mim que tomei o maior esculacho do Jangada, e fui o último a sair da delegacia.

16 comentários:

Livre Expressão da Lucilaine disse...

Eloy,

Acho que já comentei com vc que nunca sei se seus contos são reais ou não e nisso mora a beleza. Não sei se é o Eloy contando ou um personangem que inventou.
Deveria colocar tudo num livro. O título vc já tem "Viagens do Eloy".
Parabéns!

Bjão meu amigo!
Lu

Mino disse...

Adorei a história. Coisa doida essa de ditadura, qualquer coisa esses doidos prendiam.

Elizabeth disse...

Concordo com sua amiga, essas recordações de bastidores valem livros.
Beijos

Anônimo disse...

Querido, recebi tua msg pelos "Escritores Malditos", li teu conto e o achei bastante interessante, já que vivo no Jardim do Salso e também fiz parte dos ditos cabeludos maconheiros. Seguramente gostaria de ler mais textos teus. Estou te add para, quem sabe, trocarmos impressões literarias. Lu Reffatti

Marga disse...

Sempre adoro tuas viagens Eloý, pq viajo junto no tempo!
Bah, Magrão, tu era da turma dos magros da protásio então??Hehe
Eu era da turma do quarto distrito,Pernambuco e redondezas!lembro muito bem desta época da ditadura,apesar de ser um pouco mais moça que tu, foi fogo a coisa!!Mas eu ainda acho que aquele tempo era melhor do que este que vivemos agora! Bem saudosista,né?hehe
Bem legal!

Sofia.procura disse...

sempre uma excelente história.
Brasil Nunca mais, lembra?? Tempos do AI5, da ditadura, tempos em que usar meras palavras e roupas da moda eram sinônimos de rebeldia e vistos como indícios de adesão à drogas, à marginalidade, à bandalheira...nem Beatles em casa podiamos ouvir, acredita escritor?? Sabe lá o que foi ser adolescente, tendo o pai militar e mineiro uai?? fui caçula de cinco irmãs, e vi o desenrolar da História crescendo no interiorzão de SPaulo...
Hoje eu rio, foi engraçado... viviamos entre excitadas e horrorizadas pelas "indecências" da jovem guarda e das danças libidinosas de Elvis "The Pelvis". Tenho saudades, Eloy...seu conto me trouxe de volta essas reminiscências todas...achei delicioso, Obrigada.

um beijo amigo
sempre
Sofia.

Verinha disse...

Nossa!!!Essa foi de tirar o fôlego. Eu que tenho um filho adolescente fiquei só imaginando como eu ficaria se essa estupidez acontecesse com meu filho.
Realmente, a ditadura é algo horrível, é não deixar que a outra pessoa se expresse.
Realmente viajei na sua história Eloy. Parabéns!!!

Anônimo disse...
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Anônimo disse...

Putyz!!!
mistura doida...
caramba!!
Viagem fantastica!!!!
Eloy,
seu conto tem de um fragmento,
real,será que isso aconteceu???
Gente, o homem é louco!!!
Eloy, vc já assistiu o filme
Cronicamente Inviável???
gostaria que,mudasse o contéudo pragmático do contexto, em conto análitico,
Acho sua cara, "criticas"!!!!!

GEORGINA corral!!!!

Helena disse...

Eloy,
Vc és incrivel mesmo...
pensei que depois da apitada vc assumiria os riscos sozinho, risos!!! fico imaginado se vc tens ainda contato com estes amigos que vivenciaram este dia.

Acho que juntando todas as histórias daria um belo livro pois, as histórias são muito envolventes e divertidas nas quais muitas pessoas se identificariam com elas, porém, quando termina ficam tantas perguntas como uma vontade de saber mais...e mais... como foi quando vc chegou casa??? e a turma???
Um Abraço! seu rebelde do apito!

Ghiza Rocha disse...

Ahahahaha, o policial tem fama de ser mesmo delisadíssimo né?

Claire disse...

Boa essa, tio! Vou mandar uma copia pra Clara, pois ela nao tem computador, vamos ver se ela lembra dessa aventura. Bjs.

Miss Supahstah disse...

Gente! Que legal e que medo!
Gostei demais!
verdadeira ou não, é uma história excelente!!!


ps: a ditadura deve ter sido muito chata, né?... Pelo menos acabou no ano em que nasci! E espero que nunca mais volte...

roberta# disse...

Nooooossa! que história...kkk
tipo.tirando a ditadura,aquela época devia ser bem legal,né.o clima da juventude,sei lá!Essa história é verdade mesmo???
Se não for, ela é mto legal!
adorei

Giorgia disse...
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Renata Custodio disse...

Olá Eloy, enfim sai das páginas do orkut para manifestar a minha admiração pelo seu trabalho aqui.

Amo essa fidelidade e esse saudosismo (que lhe é Próprio) as idéias que materialmente não existem mais ( como o Raul ),mas que sentimentalmente estão sempre presentes.

Hoje em dia nos falta esse idelalismo, as recordações de algo realmente significante.

Sou passageiros nessa idéias alucinantes.

Parabéns !!!!!

Renata Custódio
orkut: ♂ Re ♀